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Será que eu quero outro futuro? [1]
[1] Tatiane poderia ter sido uma garota muito especial, mas ela não sabe disso. Desde jovem envolveu-se em coisas que não se encaixam muito bem no padrão aceito da sociedade. Não era boa aluna, pensava somente em se divertir e não gostava de pensar nos dias futuros, talvez nem nas horas futuras. Estava sempre em todos os movimentos do bairro e de vez em quando se envolvia com um ou outro paquerinha da época. Tempos mais tarde experimentou prazeres da vida também não muito presentes nos padrões já citado. Experimentou algumas coisas e trouxe problemas à família, principalmente à sua mãe. Mas a vida continua e as pessoas evoluem, Tatiane deu um tempo na vã vida e conseguiu um emprego, se distraia e não tinha tempo para pensar em outras coisas. E se distraia até demais, tanto que não pensava em terminar os estudos básicos para tentar continuar a evolução que muitos desejam ter. Certo final de semana, Tatiane foi esquecer um pouco da corriqueira semana e foi a um showzinho daqueles em que se encontra a galera toda. Ela não sabia, mas nesta noite, ao final do show, conheceu a pessoa com quem passaria o resto de sua vida. Tatiane não deu interesse a este fato, tanto por não saber, e os anos se passaram. Hoje, sem muito saber do passado, Tatiane leva sua vã vida como outros que nela entraram. Logo após o showzinho encontrou os seus camaradinhas do bairro e caíram em suas baladinhas privadas. Aprofundou-se no consumo de certos produtos naturais que agente encontra por aí em locais não muito apropriados e de formas não tão lícitas. Entorpecia-se nos finais de dia e nem se lembrava que na manhã seguinte teria que trabalhar, e não lembrava mesmo, tanto que levou um par de advertências de sua chefe. As faltas eram mais freqüentes e Tatiane terminou por perder o emprego. Ficou com uma bolada o suficiente para se manter até encontrar outro emprego e assim continuou tocando sua vã vida. Mas a sua imagem não era das mais bem vistas no mercado executivo, então ficou difícil de conseguir outro emprego, mas ela era forte e persistia a procurar. Os nãos eram mais freqüentes e isso a deixava preocupada, e para se sentir melhor, fazia coisas do passado. Conforme foi acabando o dinheiro, foi acabando também seus prazeres e até conseguiu ficar uns tempos sem, mas, a vontade bate e como alguém que não tem o que comer, fica no desespero e pensa em certas coisas que também não são daquelas que seguem aqueles padrões que já dissemos antes. Não houve outro jeito, Tatiane sucumbiu às necessidades mentais e conseguiu um troco para matar sua vontade. Troco esse que dias depois lhe custaram alguns outros, num daqueles lugares em que pessoas que cometem certas atitudes contra os nossos padrões ficam reditas por um determinado tempo.
Escrito por Leonardo Cerbaro às 23h22
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Será que eu quero outro futuro? [2]
[2] Esses dias foram de moer, pois, ali sim ficava mais difícil de conseguir suas coisinhas. Uma ou outra até passou, mas quem dominava o mercado passou a exigir cada vez mais e mais, e Tatiane não tinha tanto assim. Bom, passou-se o tempo necessário e de volta as ruas, lembrou do que passara há tempos e prometeu que não repetiria. Sua mãe já não tinha aceitado sua atual condição e não permitiu que voltasse para casa. Parou então na casa de um de seus camaradas e por lá uns dias passou. Sem dinheiro, sem casa, mas ainda com sua enorme vontade, Tatiane encontrou outros métodos de satisfazê-la, o primeiro foi com o dono do pacote, o segundo, talvez também foi com ele, já o terceiro foi com um estranho que reembolsô-la pela excelente noite que tiveram, e assim continuou, seguindo sua vã vida com suas necessidades sempre em dia e seus recursos adquiridos nas noites da cidade. Bom, seis anos se passaram desde o showzinho e Tatiane percebe que aquilo que leva e que apelidam de vida não era exatamente o que ela esperava. Volta e meia se pega pensando que poderia ter casado com um rapaz comum que leva também uma vida comum mas que na maioria dos olhos é bem aceitável. Pensa se por acaso não conseguiria manter o emprego e pudesse se divertir de diferentes formas com seu novo namoradinho. Pensa também, que poderia, por pura opção, mudar de emprego, para conseguir uma coisa melhor, para sentir-se mais realizada, profissionalmente, e até, quem sabe, matrimonialmente, pois se tivesse algo bem sólido em que se apoiar arriscaria um possível casório. Pensa ainda, se teria alguma chance de terminar os estudos básicos, e que talvez seu já maridinho a ajudaria a realizar esses sonhos. Pensa, mais tarde, que também tentasse ir além, um outro emprego, com um salário maior, com um respeito maior, talvez numa dessas empresas que está presente na cidade toda, e quem sabe, no estado todo. Pensa, além, que no que mais não poderia acontecer, que nada mais poderia ficar melhor, em tornar-se acadêmica num daqueles cursos que é responsável pelo maior trunfo da sociedade, que é a educação. Tatiane, pensa, e pensa em tudo que viveria, em tudo que realizaria, pensa, pensa, em que poderia ser somente um homem a deitar-se consigo ao invés das dezenas que se deitaram por semana. Tatiane pensa, enquanto o sangue escorre pelos seus pulsos.
Escrito por Leonardo Cerbaro às 23h22
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Terei de continuar?
A noite era úmida e fria. Ao deixar o hotel pela porta principal ainda lembro-me do terraço. Chuva gelada. Aceno para um táxi e acendo um cigarro. Já não mais chovia. O vestido vermelho era chamativo, logo logo alguém irá sentir falta. Vercetti queria que fosse rápido, diz que é a característica da Família. Até entendo que seja necessário, fiz rápido, mas demorei mais que nas outras vezes. Que boca suave, ainda sinto o gosto do batom. Fiz questão da dança, fazia tempo que eu não dançava. Peço ao taxista que estacione. Muitas luzes, alguém pode reparar. Digo para dar a volta pelo cassino, é mais escuro. Dinheiro! Do pequeno maço restam-me apenas alguns trocados do que o taxista me levou. Era mais baixa do que parecia, o salto deslizava suave pelo salão. Queria levá-la para casa. Pela primeira vez hesitei em fazer o serviço, mas eu precisava da grana. Recuperei logo a consciência e a levei ao terraço. Como tinha dito, o homem de sobretudo se aproxima. Outro cigarro. Mais uma vez ela me veio à cabeça. Trocamos palavras naquele terraço onde o vento batia sem barreiras. Voz suave. O seio pressionado ao meu corpo na hora do beijo. O golpear é mais seco e ao mesmo tempo suave, a mão fica gelada e seca. Nem a poucos metros se ouve o som. Sua barriga murchou com o disparo do silenciador. Apenas a terei na memória. Minhas lembranças são interrompidas com a grossa voz pedindo por fogo. Entrego-lhe o isqueiro e ele me passa o dinheiro. Mais um mês sem fome.
Escrito por Leonardo Cerbaro às 16h09
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